O EX-ESTRANHO, o poeta curado da tarefa de viver..
Biblioteca da Fafi e obras Leminskianas eram quase antônimas. Mas hoje passeando entre os livros descobri que novos olhos vão radiar e sorrisos lascivos se mostrar diante as novas obras do ex-estranho Paulo Leminski. Apenas mais dois exemplares adquiridos, mas que merecem olhos, ouvidos e todos os sentidos. Envie meu dicionário (critica) e O ex-estranho (poesia). Não me contive em não postar algumas dessas poesias “inéditas”.
INVERNÁCULO
(3)
(3)
Esta língua não é minha,
qualquer um percebe.
Quando o sentido caminha,
a palavra permanece.
Quem sabe mal digo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é a minha língua.
A língua que eu falo trava
uma canção longínqua,
A voz, além, nem palavra.
O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis da fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.
misto de tédio e mistério
meio dia/ meio termo
incerto ver nesse inverno
medo que a noite tem
que o dia acorde mas cedo
e seja eterno o amanhecer
a uma carta pluma
só se responde
com alguma resposta nenhuma
algo assim como se a onda
não acabasse em espuma
assim algo como se amar
fosse mais do que bruma
uma coisa assim complexa
como se um dia de chuva
fosse uma sombrinha aberta
como se, ai, como se
de quantos como se
se faz essa história
que se chama eu e você
DIONISIO ARES AFRODITE
aos deuses mais cruéis
juventude eterna
Eles nos dão de beber
na mesma taça
o vinho, o sangue e o esperma
desastre de uma ideia
só o durante dura
aquilo que o dia adiante adia
estranhas formas assume a vida
quando eu como tudo que me convida
e coisa alguma me sacia
formas estranhas assume a fome
quando o dia é desordem
e meu sonho dorme
fome da china fome da índia
fome que ainda não tomou cor
essa fúria que quer
seja lá o que flor
azuis como os sorrisos das crianças
e pesado como os provérbios da velhas
anos cultivei a ideia do poema,
coisa inteira, ovo, ânsia e antena,
meus poemas são ideias
ontem, coisa inteira, hoje, apenas manchas
CAMPO DE SUCATAS
saudade do futuro que não houve
aquele que ia ser nobre e pobre
como é que tudo aquilo pôde
virar esse presente podre
e esse desespero em lata?
pôde sim pôde como pode
tudo aquilo que a gente sempre deixou poder
tanta surpresa pressentida
morrer presa na garganta ferida
raciocínio que acabou em reza
festa que hoje a gente enterra
pode sim pode sempre como toda coisa nossa
que a gente apenas deixa poder que possa
ah se pelo menos
eu te amasse menos
tudo era mais fácil
os dias mais amenos
folhas de dentro da alface
mas não
tinha que ser entre nós
esse fogo
esse ferro
essa pedreira
extremos
chamando extremos na distância
O que o amanhã não sabe,
o ontem não soube.
Nada que não seja o hoje
jamais houve.
nunca sei ao certo
se sou um menino de dúvidas
ou um homem de fé
certezas o vento leva
só dúvidas continuam de pé
Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feio tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui
Poesias do livro “O ex-estranho” publicado em 2008 pela editora Iluminuras da Coleção Catatau.

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