A pesca
Affonso Romano de Sant'Anna
O anil
o anzol
o azul
o silêncio
o tempo
o peixe
a agulha
vertical
mergulha
a água
a linha
a espuma
o tempo
o peixe
o silêncio
a garganta
a âncora
o peixe
a boca
o arranco
o rasgão
aberta a água
aberta a chaga
aberto o anzol
aquelíneo
agil-claro
estabanado
o peixe
a areia
O anil
o anzol
o azul
o silêncio
o tempo
o peixe
a agulha
vertical
mergulha
a água
a linha
a espuma
o tempo
o peixe
o silêncio
a garganta
a âncora
o peixe
a boca
o arranco
o rasgão
aberta a água
aberta a chaga
aberto o anzol
aquelíneo
agil-claro
estabanado
o peixe
a areia
o sol
A Pesca
Era uma daquelas tardes estressantes, embriagada pelos caos.
Caos visual, sonoro, ambulante, todos eles trabalhando em conjunto, típico de uma metrópole. Naquelas tardes onde o silêncio e a paz valem uma fortuna. E num relance, um olhar sobre o congestionamento - esse que parecia uma anaconda gigante - vi a imensidão azul em cima de mim, tão graciosa e serena. Fez lembrar-me das viagens do dia de pesca com meu pai, que fazia quando era pequeno.
Aquelas tardes que não se tinha nada além da vastidão do céu anil e meu anzol. O silêncio e o tempo só para mim.. nada de zuídos. Só eu e minha vara de pesca a espera da minha glória, minha caça! Sem pressa minha isca mergulha, perfura as águas profundas, faz espuma, e vai ao encontro da minha tranquilidade, meu assossego, meu peixe.
Agora a natureza por si só e no seu tempo se encarrega de me encontrar no silêncio de minha pesca. Será agora ela que me fisga e me engana? Será ela que me enlaça? Prende minha boca, amarra minha garganta e arranca o meu silêncio? Será ela que aliena minha chaga metropolitana? Vem penetrante, aquilina agir na mente deste estabanado homem-contemporâneo. Vem fazer de mim teu peixe, tua areia e teu sol.
Biiiiiii-biiiiii foun- foun! Está dormindo!!!!
Eis que a minha “real” natureza me acorda e me enlaça mais uma vez.
Jaque N.
Jaque N.
Brincando de transformar gêneros na aula de Língua Portuguesa ano passado.

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